Hayrton Ferreira e a Arte de Envelhecer com uma Raquete na Mão
- Raphael Favilla
- 18 de mar.
- 8 min de leitura
Atualizado: 20 de mar.
UM CAMPEÃO EM AÇÃO
Último dia de janeiro de 2025. O sol castiga a quadra de saibro na capital mexicana, apesar do horário, poucos minutos passados das nove da manhã. O mineiro Hayrton Ferreira, perto de completar 82 anos, se ajusta para sacar. Vai começar a final do prestigiado MT1000 México na categoria 80+.
Suas mãos, marcadas por décadas empunhando raquetes, apertam as cordas com a mesma precisão de sempre. Ao seu redor, competidores da categoria masters aguardam sua vez de entrarem em quadra. Alguns esticam os músculos enrijecidos pelo tempo, outros discutem estratégias em diversos idiomas. O circuito internacional de tênis para veteranos é um mundo à parte – uma comunidade global onde a idade é apenas um número no documento, nunca uma limitação.
CONQUISTAS RECENTES: UM INÍCIO DE ANO DOURADO
O ano de 2025 começou com chave de ouro para o octogenário. Em fevereiro, Hayrton conquistou o prestigiado MT1000 México, defendendo com sucesso o título conquistado em 2024. Na final de simples, superou o chileno Manuel Marras com um placar de 6/2, 4/6 e 10/6 no super tie-break decisivo. Não satisfeito, também levantou o troféu de duplas ao lado do mexicano Gustavo Vogel, vencendo a dupla formada pelo italiano Jiusep Vento e o espanhol Yaz Azan por um contundente 6/0, 6/4.

Esses resultados expressivos mantêm Hayrton na terceira posição do ranking mundial da ITF na categoria 80M – posição que ocupa desde 23 de março de 2024 sem interrupção. "Venho mantendo as segunda e terceira posições no ranking da ITF Seniors Masters Tour", comenta com a naturalidade de quem não vê na idade avançada qualquer impedimento para continuar competindo no mais alto nível.
OS PRIMEIROS PASSOS: UMA CARREIRA TARDIA
A trajetória deste mineiro no tênis começou tardiamente, aos 30 anos, em 1978, quando trabalhava como encarregado na Praça de Esportes, em Ubá. O que era curiosidade transformou-se em paixão quando conheceu "Zé Sapucaia", um jogador local que, percebendo seu interesse desmedido, apresentou-o a Luiz de Oliveira, o "Lula do Tênis". Nos anos seguintes, entre as responsabilidades do trabalho e família, Hayrton dedicava cada minuto livre ao paredão – aquela estrutura simples que se tornaria sua primeira "parceira" de treinos.
"Além do tênis, pratiquei natação pelo Fluminense, onde fui campeão carioca nas categorias estreantes e principiantes em 1961 e 1962. Também competi em saltos ornamentais pelo Vasco da Gama, em São Januário, em 1963, e pelo Círculo Militar de Brasília, de 1965 a 1970", recorda sobre sua carreira esportiva diversificada. "Todos esses esportes me proporcionaram grandes alegrias e poucas tristezas, mas o tênis se incorporou definitivamente à minha vida. Pretendo continuar competindo enquanto Deus me privilegiar com essa capacidade."
A ASCENSÃO EM BRASÍLIA: DE FUNCIONÁRIO PÚBLICO A ÍCONE DO TÊNIS
A vida profissional o levou a Brasília em 1984, como funcionário concursado do INPS. Foi na capital federal que sua carreira no tênis decolou, chegando à primeira classe do Distrito Federal. "Me destacava entre os melhores da cidade, só perdia mesmo para o Jacarandá", recorda com o orgulho de quem sabe que aqueles anos construíram as bases técnicas que sustentariam sua longevidade no esporte.
Sua presença em Brasília foi tão marcante que, nas décadas de 1970 e 1980, seu nome batizou um dos torneios mais importantes da capital: o Hayrton Bowl. "Foi uma época de ouro para o tênis brasiliense", relembra com nostalgia. "Eu era um dos grandes incentivadores da modalidade na cidade, tentava trazer mais pessoas para as quadras." Esse legado como promotor do esporte permanece vivo na memória dos veteranos do circuito nacional.
"Um dos maiores orgulhos de minha carreira foi a criação do Hayrton Bowl, realizado entre 1980 e 1994. Foram 120 competições ao longo desses anos, com sete etapas e mais um Masters anualmente. Cada competição tinha uma média de 200 participantes", destaca com satisfação. Em janeiro de 2024, ele reviveu esse legado organizando o Hayrton Bowl Uno Performance. "O objetivo principal não era simplesmente determinar um campeão, mas garantir que cada atleta disputasse no mínimo quatro jogos no formato melhor de três sets, com o último em supertiebreak, exatamente como acontece nos eventos da ITF. Ter um campeão e um vice era apenas consequência, não o foco principal."
A DESCOBERTA DO CIRCUITO MASTERS: UMA NOVA VIDA AOS 60
Mas foi apenas em 2005, já na casa dos 60 anos, que Hayrton encontrou sua verdadeira vocação: o circuito Masters. "Estava nervoso, porém treinado, e cheguei à final para ser vencido por Mendrop em dois tiebreaks", relembra sobre seu batismo no mundo dos veteranos. O que poderia ter sido apenas uma experiência pontual transformou-se em um novo capítulo de vida.
"Quando comecei a jogar seniors, aos 44 anos, achava que já estava velho demais", confessa Hayrton com uma risada que revela o absurdo daquele pensamento inicial. Quase quatro décadas depois, ele continua cruzando continentes para disputar torneios ITF na categoria Masters, acumulando troféus e experiências que muitos jovens jamais terão.
Sua ascensão no circuito de veteranos foi gradual, mas consistente. Em 2009, quando tinha 66 anos, Hayrton já era o líder do ranking brasileiro de simples e duplas na categoria 65/69 anos, ocupando a 27ª posição no ranking mundial da ITF. "Foi a primeira vez que atingi o topo do ranking nacional, e isso me encheu de satisfação", relembra sobre aquele período. Naquele mesmo ano, conquistou o título de campeão sul-americano por equipes em Santa Cruz, na Bolívia, além de vários outros troféus em torneios no Brasil e na América Latina.
"Lembro que voltei do Chile encantado com Santiago", conta sobre uma de suas primeiras viagens internacionais para competir. "Apesar de já ter rodado meio mundo e passado por lugares tão distantes quanto Nova York e Queenstown, na Nova Zelândia, nunca tinha posto os pés no Chile. E a visita ao país vizinho foi ainda mais especial porque trouxe na bagagem mais um troféu internacional para minha coleção."

OS DESAFIOS DO CIRCUITO: PREPARAÇÃO FÍSICA E MENTAL
O circuito Masters é particularmente desafiador pela diversidade de condições. "México, com 2.600 metros de altitude; Bolívia, com ventos fortíssimos; Barcelona, com calor de 37 graus onde só se treina a partir das 19 horas", enumera Hayrton sobre os desafios que enfrentou. Para um atleta da terceira idade, adaptar-se a essas variações exige não apenas preparo físico, mas uma resiliência mental que poucos possuem.
"É fundamental disputar torneios com seniores de categorias inferiores à minha, que têm potencial de jogo igual ou superior ao meu," explica Hayrton. "Essa preparação me coloca em condições ideais para enfrentar os grandes desafios do circuito, como os MT1000 de Capedepera, em Mallorca, que reúnem entre 60 e 70 participantes, ou mesmo o Mundial, com número ainda maior de competidores."
"Em uma única semana, podemos realizar seis jogos ou mais se chegarmos a duas finais. Sem preparo físico adequado, é impossível manter o rendimento. E isso sem considerar que quase sempre estamos competindo também nas duplas", acrescenta o veterano tenista, destacando a importância do condicionamento físico para suportar a maratona de partidas nos grandes torneios.
A rotina de Hayrton desafia estereótipos sobre a terceira idade. Seu calendário de treinos seria extenuante mesmo para alguém décadas mais jovem: treinamento físico três vezes por semana, treino de quadra três vezes por semana, uma hora semanal de academia. Tudo meticulosamente planejado em torno do calendário de competições internacionais.
SUPERANDO OBSTÁCULOS: A RESILIÊNCIA DE UM CAMPEÃO
O caminho até aqui não foi sem obstáculos. Em 2011, aos 68 anos, enfrentou um câncer que exigiu uma nefrectomia. Também passou por cirurgias para tratar três hérnias inguinais e problemas na coluna em 2007. "Em 2004, sofri uma hérnia na virilha e tive que ser operado. Fiquei uns dois meses me recuperando e, quando voltei a jogar, tive um problema sério no ombro. Só melhorei depois de dois meses e meio de fisioterapia diária", recorda sobre os desafios físicos que enfrentou. "Quando fiquei bom, decidi que iria cuidar de todas as outras partes do meu corpo. Cuidei da coluna, fiz trabalhos nas coxas e em outras regiões."
"Muitos médicos disseram que eu deveria parar de jogar tênis. Eu troquei de médicos", brinca, revelando a determinação que o fez superar cada diagnóstico pessimista.
Agora, ao retornar ao Brasil após sua mais recente conquista internacional, Hayrton enfrentou um novo desafio: um procedimento médico, onde recebeu uma infiltração de ácido hialurônico na região lombar através de cânula. "Jogar com dor nessa idade não é fácil, sobretudo quando não me é permitido pelo meu médico tomar anti-inflamatório devido à nefrectomia realizada em 2011", explica com a serenidade de quem já enfrentou batalhas mais difíceis.
LEGADO FAMILIAR: O TÊNIS COMO HERANÇA
Seu filho Marcelo seguiu seus passos no tênis e hoje, além de funcionário concursado do TRF em Brasília, ministra aulas e participa de projetos de desenvolvimento da modalidade. A paixão pelo esporte é, definitivamente, um legado familiar. Em 2009, quando Marcelo tinha 39 anos, já era formado em gestão esportiva em Nova York e técnico habilitado pela Associação Norte-Americana de Tênis Profissional (USPTA). Na época, dava aulas no Clube do Exército e participou da Conferência Mundial de Treinadores de Tênis em Valência, na Espanha, promovida pela Federação Internacional de Tênis (ITF).
"Vejo Marcelo jogando e me vejo jogando através dele", confessa com emoção. "Ganho quando ele ganha."

FILOSOFIA DE VIDA: O TÊNIS COMO METÁFORA
"O tênis competitivo desde há muitos anos constitui o preenchimento de minha vida", afirma com a convicção de quem encontrou um propósito. Atualmente, participa de cerca de sete torneios internacionais por ano, dependendo financeiramente de patrocinadores – uma realidade comum mesmo para campeões na categoria Masters. "Atualmente tenho ganhado mais do que perdido", diz com a satisfação de quem colhe os frutos de décadas de dedicação.
"Tenho títulos e troféus, mas o que realmente valorizo nos torneios é o momento em que conquisto o ponto final, especialmente contra um grande competidor. O aperto de mãos e o abraço complementam essa alegria", filosofa. "As vitórias me alegram, mas é nas derrotas que realmente aprendo. Elas se tornam motivação para identificar erros, treinar mais e com disciplina mais rigorosa."
Entre os veteranos do circuito Masters, Hayrton é conhecido não apenas por sua técnica, mas pela filosofia de vida que compartilha nos clubes e hotéis por onde passa. "Faz minha experiência de manter-me ativo e o mesmo que deixo para os demais na faixa que estão de vida: pratiquem qualquer atividade física, cultural, assistencial, religiosa. Que vivam o que lhes dá entusiasmo por viver. A vida não é o resto."

"Gosto principalmente de jogar simples, pois nessa categoria dependo apenas de mim mesmo", confessa. Ele se define como "conservador, purista e saudosista" quando o assunto é tênis, fazendo referência a William Tilden, lenda do esporte nas primeiras décadas do século XX. "Nenhum esporte derivado do tênis conseguirá apresentar aquela gama de jogadas, plasticidade e beleza que frequentemente vemos nas quadras. Essa é a beleza da modalidade, que reflete nossa vida com seus altos e baixos."
"Minha esposa convive com Alzheimer desde 2013, e sempre digo que o tênis é uma das melhores indicações para prevenir essa condição. Além da atividade física, a concentração necessária para acompanhar a contagem do jogo é um excelente exercício mental", compartilha, destacando os benefícios cognitivos da prática do tênis, especialmente na terceira idade.
SUPERANDO EXPECTATIVAS: O FUTURO AOS 82
Quando tinha 66 anos, Hayrton foi personagem de uma matéria publicada no Correio Braziliense. Ele estava encantando com a participação de Edmundo Gifone, tenista paulista à época com 93 de idade, na categoria 85 anos em um torneio em Porto Alegre. "Chegar a essa idade jogando tênis não é para qualquer um. No meu caso, se eu estiver jogando aos 75 anos, já vou estar bem feliz", reconhecia.
Hoje, aos 82 anos, Hayrton superou em muito aquela expectativa, provando que seus limites estavam muito além do que imaginava. Com 1,67m de altura e 65kg, mantém praticamente o mesmo físico de décadas atrás, resultado de uma disciplina férrea e cuidados constantes com a saúde.

"Muita gente da minha idade está em casa, reclamando de dores e assistindo televisão. Eu estou nas quadras, sentindo dores também, mas fazendo o que amo", filosofa enquanto mostra as medalhas conquistadas em torneios pelo mundo.
A JORNADA CONTINUA
Enquanto muitos de sua geração limitam-se a contar histórias do passado, Hayrton continua escrevendo as suas no presente. Seu próximo torneio internacional está marcado para depois de sua recuperação do procedimento médico. A raquete já está recém-encordoada, e a determinação, como sempre, inabalável. Para ele, a aposentadoria é apenas um status burocrático, nunca uma condição de espírito.
"Muitos me perguntam quando vou parar de jogar tênis", diz ajustando a raquete no ombro enquanto se prepara para mais uma sessão de treinos, assim que for liberado pelos médicos. "Eu sempre respondo: provavelmente no mesmo dia em que parar de respirar."
Entrevista e texto: Raphael Joppert
Fotos de Hayrton nos jogos: Gustavo Werneck
Vez por outra, aos sábados pela manhã, temos o privilégio de treinar com o Sr. Hayrton na quadra em sua casa. Treinamos com entusiasmo e alegria (emanadas do Sr. Hayrton). E, durante o reversamento, quem fica de fora, ainda delicia-se com as várias tipos de mangas (dos mangueirais próprios). E após os treinos, ele nos oferece, gentilmente, pão com linguiça e cerveja, recheados com instigantes e rico bate-papos, além de lindas histórias de vida...É, enfim, uma experiência muito bacana