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Campeão aos 18, Fonseca já tem maior desafio da curta carreira: conter a euforia sobre seu futuro

Atualizado: 25 de dez. de 2024

A exemplo de grandes nomes do esporte, incluindo o tênis, o brasileiro João Fonseca desponta para o mundo muito jovem, ainda em seu primeiro ano no circuito profissional. Cercado de expectativas e apontado por muitos especialistas e colegas de profissão como o grande expoente da nova geração do tênis, o jovem carioca despertou de vez a atenção e admiração da opinião pública após sua semana perfeita em Jedá, na Arábia Saudita, na campanha para seu primeiro título de primeira linha da ATP, batendo seus principais adversários da mesma faixa etária, no Next Gen ATP Finals.


Acaba soando natural o frenezi do momento em torno do nome de João Fonseca em função da sua meteórica ascensão no ranking do circuito mundial, após menos de um ano da decisão de fazer a transição do juvenil - onde acabara de vencer seu primeiro título de Grand Slam no US Open 2023 - diretamente para o circuito profissional, desistindo de realizar um "estágio" no circuito universitário norte-americano, plano que estava traçado para João até o convite para a chave principal do Rio Open e suas duas vitórias no ATP 500 carioca, que o levaram até as quartas de final do evento, o tornando o mais jovem sulamericano a atingir essa fase em um torneio dessa magnitude até hoje no circuito.


No entanto, precisamos falar mais a respeito e buscar desmistificar esse natural "oba-oba" que acompanha os grandes atletas, especialmente os precoces como João. Podemos, evidentemente, enaltecer os feitos de todo jogador ou qualquer outro profissional da área que seja. Em certa medida, isso é saudável e justo. Porém, devemos questionar a intensidade, frequência e forma como acontecem tais elogios, que em demasia e por vezes fora do tom acabam tendo um efeito indesejável e praticamente inverso da pretensa intenção: gera expectativa em excesso, criando uma pressão enorme e desnecessária sobre um jovem que mal terminou sua formação técnica e ainda está em fase de desenvolvimento físico, tático e mental para enfrentar adversários muito mais difíceis que o circuito juvenil ou mesmo os torneios de entrada da ATP oferecem.


João Fonseca se torna o segundo mais jovem vencedor do Next Gen ATP Finals, e gera alvoroço no tênis mundial
João Fonseca se torna o segundo mais jovem vencedor do Next Gen Finals, e gera alvoroço no tênis mundial

Obviamente, temos que contextualizar casos como esse para a carência que o tênis brasileiro vive, principalmente o masculino. Desde o fim da era Gustavo Kuerten, nunca mais chegamos perto de ter um tenista top entre os homens no ranking de simples (a ressalva aqui fica para os duplistas Bruno Soares e Marcelo Melo, e para Beatriz Haddad Maia e Luisa Stefani, entre as mulheres). Então, é natural a ansiedade dos brasileiros amantes do tênis quando vislubram uma nova oportunidade do nosso país estar no topo do mundo da modalidade.


Porém, vale lembrar que muitas ditas "promessas" do tênis - extensivo para outros esportes, inclusive o futebol - ficaram pelo caminho, alguns ainda no início da carreira, após uma chuva de elogios, comparações com grandes nomes do passado e do presente (algumas delas esdrúxulas) e altas expectativas geradas. Invariavelmente, com raras exceções, essa combinação é justamente a tempestade perfeita para uma derrocada precoce, dada a pressão externa - e posteriormente interna, que o próprio atleta projeta sobre ele em função da que vem de fora - por performance e resultados que na maioria das vezes um jovem de 18, ou mesmo 20 e poucos anos não está preparado ainda para suportar e entregar.


Esperar esse entendimento e compreensão do grande público, ou seja, de fãs movidos pela paixão, seria exigir demais de toda uma coletividade que urge por vitórias e títulos. No entanto, cabe aqui uma autocrítica e reflexão para nós, formadores de opinião. Não me parece sensato exagerar nos confetes sobre um atleta tão jovem, ainda em formação, sob o risco de contribuir para uma oscilação emocional - e possivelmente uma perda de foco e rota no futuro -, que já seria natural em um atleta de alta performance no início de carreira, por mera empolgação ou mesmo um oportunismo por busca de mais audiência a partir de resultados muito bons, é verdade, porém muito incipientes também, no começo de uma jornada que tem tudo para decolar e ir longe, mas que hoje está um tanto distante ainda dessa projeção.


Cabe hoje a nós, sim, vibrarmos, torcermos e enviarmos nossas melhores energias para que João Fonseca continue trilhando seu caminho com o brilhantismo mostrado até hoje rumo à sua melhor versão. Se isso será o suficiente para torna-lo multicampeão como Nadal e Federer, melhor que Guga ou o novo goat do tênis, não sabemos nem temos o mínimo controle sobre isso. Nem o próprio João ou sua equipe têm, na verdade. A eles cabe se dedicarem, treinarem com afinco, terem um bom planejamento e perseverarem ao longo dos anos. E o resto, a história dirá no futuro.


Dito isso, torço muito, muito mesmo para que João Fonseca se torne o nome do tênis mundial no futuro, mas isso não condiciona minha admiração por seu talento, e como joga com coragem e paixão mesmo sendo tão jovem. E a ponta de esperança aqui está em perceber, em suas entrevistas recentes, como ele não se preocupa em ser o número um do mundo, melhor que beltrano ou sicrano. Ele quer ser apenas o João e continuar fazendo o que ama, jogando seu tênis e entretendo quem também ama esse esporte fascinante.


Crédito imagem: Peter Staples/ATP Tour

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